Texto e fotos: Rafael Cunha Procópio

O retorno do Nevermore aos palcos, 15 anos após o encerramento de suas atividades, é daqueles eventos que gera grande comoção na cena metálica e é cercado por todos os tipos de fortes emoções dos fãs e das partes relacionadas. A banda ainda costuma arregimentar – com ou sem razão, fica a critério de cada um – a lista dos atos que perderam a sua “alma” em virtude do falecimento precoce de um (ou alguns) membro(s) considerado(s) insubstituível(eis) e indispensável(eis) à carreira da banda. Colocando essa questão (quase filosófica) de lado, fato é que o anúncio da reformulação do Nevermore por guitarrista fundador Jeff Loomis e baterista Van Williams, no final de 2024, sem o retorno de Jim Sheppard no baixo e após quase uma década do falecimento do grandioso Warrel Dane, reacendeu (mais uma vez) o debate sobre a natureza desses reencontros. Uma retomada de onde pararam? Um recomeço? Uma celebração do legado da banda? Um tributo à memória e ao legado de Warrel? Mais uma exploração comercial de uma “marca” consolidada no passado, mas já enterrada? A única certeza, até então, é que a base de fãs fora atiçada e ficaria no escuro por mais de um ano ainda até que os novos membros fossem oficialmente anunciados.
Quase um ano e meio depois, cá esteve o público brasileiro presenciando metade da quadra inicial de shows da banda em 15 anos! Eu mesmo não estive presente no primeiro show da nova formação em terras paulistanas, no Bangers Open Air (domingo, 26), me restando presenciar o último show deles como headliners nessa primeira miniturnê pela América Latina (28). Mesmo sendo uma terça-feira, ainda que com o cansaço acumulado de dois dias de festival, mais uma pré-festa, mais os side shows, o público compareceu em peso (e cedo) no Carioca Club para assistir ao show completo dos estadunidenses.

Pontualmente, às 20h30 e com as luzes apagadas, os PAs da casa anunciaram que era chegado o grande momento com a breve introdução Ophidian abrindo o caminho para Loomis e seus colegas cortarem a expectativa palpável do público com os pesados riffs de abertura de Beyond Within. A meu ver, a sua escolha como faixa de abertura foi bastante acertada e já deu um relance da resposta sobre a natureza do retorno do Nevermore. Entre respeito ao passado e ao inegável peso do legado de Warrel Dane e a recepção de braços abertos aos três novos membros, a dupla Jeff e Van parece estar legitimamente focada na retomada de uma banda que estava em hiato por tanto tempo. Assim, abrir o show com Beyond tornou-se tanto uma forma de mostrar as qualidades individuais de cada músico quanto uma declaração de que, ali no palco, há uma nova unidade de pessoas compondo o Nervemore que conhecemos de outros verões.

Com toda a banda já no palco, o início da faixa foca os riffs destroçadores de Jeff Loomis e nas marretadas técnicas de Van Williams, dando alguns segundos de “conforto” auditivo aos fãs – que já os conhecem de longa data – antes de abrir caminho para Berzan Önen berrar os versos iniciais e depois explorar outras nuances vocais (que variam bastante nessa faixa particular e dão espaço para o novo vocalista mostrar a sua qualidade técnica) enquanto o seu conterrâneo Semir Özerkan demole as marcantes linhas de baixo e o “novato” Jack Cattoi desfila sua técnica na guitarra base. De cara, Berzan esbanjou carisma e mostrou ao vivo que a lataria de tanque de guerra turco é capaz de transitar perfeitamente bem entre as linhas vocais mais agressivas e as mais melódicas, que sempre foram a marca distintiva da dinâmica sonora do Nevermore. Há um tempo eu não presenciava um coro de fãs tão bem ensaiado quanto o dessa noite. Durante todo o show, a plateia, em completo êxtase, acompanhou Berzan, linha-a-linha, e tão alto que o coro ecoava nas paredes do Carioca quase que na mesma potência que a voz do palco.

Seguindo com My Acid Words e Enemies of Reality, ficou claro que Jeff e Van continuam tão técnicos e com “sangue nos olhos” quanto nos velhos tempos. O peso e a fúria com que ainda tocam essas músicas continua impressionante. Williams, em especial, parece dominar a bateria como se ela fosse um animal domesticado e bem treinado. Nem parece que as várias mudanças de ritmo e viradas no meio das músicas demandavam esforço dele. Já Loomis teve espaço de sobra para mostrar o seu virtuosismo em meio aos riffs pesados e compassados que permeiam toda a discografia da banda – especialmente nessa tríade sagrada composta pelos discos Dead Heart in a Dead World; Enemies of Reality; e This Godless Endeavor. Falando nessa tríade, o peso da noite foi reforçado ao tocarem Engines of Hate. Porém, para se preparar, Berzan convocou o público a acompanhá-lo em um exercício de aquecimento vocal, mostrando que, além do domínio técnico, também possui uma inegável desenvoltura no palco e capacidade de cativar o público. Durante a execução da música, se ainda restava alguma dúvida entre os fãs, ficou claro, de uma vez por todas, que a nova formação funciona muito bem e tem uma sinergia muito orgânica no palco. Olhando para a cozinha, parece até que Semir sempre tocou ao lado de Van, tamanha era a conexão musical entre os dois.

Entre carisma, emotividade e exímia técnica, passaram à execução da belíssima Sentient 6. Com início mais melódico e semiacústico, a música vai ganhando peso e rapidez conforme avança, mas sempre com uma entrega vocal de Berzan que superou todas as minhas expectativas. Não é por menos. Ele declarou, antes de iniciá-la, ser a sua música preferida da banda. Merecem destaques especiais as dobras de guitarra de Jeff e Jack, e, especialmente, a execução hipnotizante de Loomis do solo intermediário. Única representante do (até o momento) último disco da banda, Moonrise (Through Mirrors of Death), foi emendada na sombria – e mais antiga representante do catálogo da banda nessa noite – Next in Line. Talvez essa dobradinha tenha sido o principal ponto “fora da curva”, justamente pelo aceno a álbuns nem sempre tão lembrados pelos fãs, mas de modo algum foram pontos “baixos” do show. Muito pelo contrário, a contraposição tão imediata entre essas duas músicas mostrou, mais uma vez, o quanto Loomis e Williams parecem confortáveis com o retorno da banda aos palcos e abertos e em revisitarem as distintas sonoridades da banda com novos companheiros de banda. O som da casa estava tão claro e alto que o groove de bateria, guitarras e baixo de Moonrise e de Inside Four Walls, que veio em seguida, podiam ser sentidos quase que de forma palpável no corpo.

Essa, na verdade, parecia ser a dinâmica em torno da banda na noite. Sem sentimentos de remorso ou de pedido de permissão por voltarem, a dupla de veteranos subiu ao palco buscando unicamente aquela reconexão e magia que, muitas vezes, só a música é capaz de proporcionar. Um ponto que destaco como muito importante e que merece muito respeito é o fato de Loomis e Williams não incorrerem no erro bastante comum do saudosismo vazio e falacioso que busca apenas capitalizar a perda dos fãs e a ausência de ex-membros que já não se encontram entre nós. Eis aqui, a meu ver, o ponto alto da noite: a introdução simples, mas muito sincera e “de coração”, que Berzan fez a The Heart Collector. Dedicou-a “a todos aqueles que já perdemos, especialmente a uma pessoa muito especial a todos aqui: Warrel Dane”. Simples e sem falso moralismo ou sentimentalismo vazio, a emotividade pulsante transpirou de forma sinceramente no modo como a música foi executada no palco. Jeff Loomis, em especial, pareceu visivelmente emocionado, à beira das lágrimas, desde o momento que tocou as primeiras notas de sua guitarra.

Para “recuperar” o fôlego, emendaram Born e Final Product, duas músicas que equilibram com perfeição peso, melodia e técnica. A aparente facilidade com que os quatro instrumentistas se comunicavam no palco com suas cordas, bumbos e pratos foi algo de cair o queixo. Olhando em retrospecto, todo o tempo decorrido entre o anúncio do retorno e a reestreia ao vivo parece ter sido muito bem aproveitado para azeitar a máquina do Nevermore com as novas peças. Sem qualquer sinal de cansaço, apesar do calor absurdo dentro da casa (e no palco, como deu para perceber pela leitura labial quando Jeff comentou de lado ao roadie na coxia), tocaram a semi-balada Believe in Nothing, que tem uma das mais lindas linhas de guitarra já compostas por Loomis, acompanhada de uma bateria com feeling que poucos conseguem compor à altura de Williams.

Mostrando que o tempo passa mesmo muito rápido quando estamos nos divertindo, já na marca de 1h20 de show, a banda encerrou o set regular com o monstruoso épico This Godless Endeavor. Parecia que o show havia apenas começado, na verdade. Berzan deu mais um show de estamina cantando em meio à sequência avassaladora de mudanças de tempo da música. Passados poucos minutos, Jeff voltou ao palco para agradecer a presença dos fãs e proclamar o seu amor por eles/nós enquanto o restante da banda se preparava para tocar a dupla final de faixas do bis.

Mantendo o alto nível de performance no palco, o público seguia igualmente a todo vapor – mesmo depois de toda a cantoria, de um (não tão empolgante) wall of death e de uma boa quantidade de moshs –, acompanhando Berzan em todos os versos de Narcoshynthesis e de The River Dragon Has Come. Com um misto de incredulidade, encantamento, contemplação e alegria em iguais proporções, se não todos da plateia, a maioria do público certamente saiu do show com sorriso largo e coração leve não apenas por ter podido presenciar esse retorno histórico, mas também pela certeza de que a nova formação funciona muito bem, obrigado; além da esperança de um retorno da banda ao Brasil num futuro próximo.

Agradecimentos especiais à HonorSounds, ao Bangers Open Air e ao Marcos Franke pelo credenciamento e ao Carioca Club pelo acolhimento e ótima estrutura de show.

Categoria/Category: Review de Shows
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